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Artigo - Quando o dinheiro muda de destino, o entretenimento precisa entender o consumidor

Publicado em 30/09/2026

Por Marina Agibert*

 

Com a proibição das apostas de quota fixa no Brasil, o mercado de entretenimento ganha uma nova questão: o que acontecerá com o dinheiro e o tempo que os consumidores destinavam às bets?

O mercado brasileiro de parques, atrações turísticas e entretenimento atravessa um ciclo de expansão. Em 2025, foram 143 milhões de visitantes e R$ 9,5 bilhões movimentados pelo setor. Para os próximos anos, estão previstos R$ 11,5 bilhões em investimentos.

Até pouco tempo, quando pensávamos nas disputas pelo orçamento destinado ao lazer, as apostas online apareciam como uma concorrência menos óbvia, mas relevante. Não necessariamente porque uma pessoa deixaria de ir a um parque para apostar, mas porque diferentes formas de entretenimento disputam recursos que são limitados: dinheiro, tempo e atenção.

Agora, o cenário mudou.

A Medida Provisória 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu no Brasil a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa. A medida também veda ações de comunicação, marketing e patrocínio relacionadas às bets (Presidência da República). Diante dessa mudança, surge uma pergunta que interessa não apenas ao mercado de apostas, mas a toda a indústria do entretenimento: para onde vai o dinheiro que antes era destinado às bets?

A resposta não é necessariamente parques, viagens, restaurantes ou qualquer outra forma de lazer. O consumidor pode simplesmente deixar de gastar, direcionar recursos para outras necessidades ou reorganizar suas prioridades financeiras. Por isso, seria equivocado tratar a proibição como uma oportunidade automática de captura de público ou receita. Mas existe, sim, uma oportunidade de observar o comportamento.

Durante anos, as bets foram inseridas no cotidiano do consumidor como uma forma de entretenimento digital de baixo atrito. Estavam disponíveis pelo celular, a qualquer hora e sem a necessidade de deslocamento ou planejamento. 

Uma experiência presencial funciona de outra maneira. Para visitar um parque, viajar ou participar de um evento, existe uma jornada muito maior: escolha, planejamento, deslocamento, ingresso e, muitas vezes, alimentação e hospedagem. Isso torna ainda mais importante compreender por que o consumidor decide sair de casa, gastar seu dinheiro e dedicar algumas horas de seu tempo a determinada experiência.

O fim das bets não significa que esse dinheiro necessariamente migrará para o entretenimento presencial. Mas pode abrir uma nova janela para entender melhor como o brasileiro distribui seu orçamento de lazer e quais experiências considera suficientemente valiosas para merecer esse investimento.

Para parques e atrações, a pergunta talvez não deva ser “quanto desse dinheiro podemos capturar?”, mas “o que faz alguém escolher uma experiência em vez de outra?” A resposta passa por preço e conveniência, mas também por experiência, emoção, relacionamento, percepção de valor e vontade de voltar. Em um mercado cada vez mais disputado, conhecer o consumidor deixa de ser apenas uma ferramenta de marketing. Torna-se uma questão estratégica.

A proibição das bets encerra um capítulo desse mercado. Mas abre uma discussão muito maior sobre comportamento de consumo e sobre como as pessoas escolhem o que fazer com seu dinheiro e seu tempo livre. E talvez essa seja a pergunta que o setor de entretenimento deveria começar a fazer agora: quando o consumidor tem uma nova parcela do seu orçamento disponível, o que fará com que ele escolha a sua experiência?

 

* Marina Agibert é CEO na Sparky

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